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Em cada máscara africana, uma marrabenta ou um kwela. A música é um dos atributos culturais mais marcantes do povo moçambicano. O primeiro acorde provoca o primeiro movimento que ninguém ensinou. Depois não há força para resistir ao chicuembo da marrabenta. O requebro sincopado das ancas, uma mão na nuca outra atrás das costas, movimentos sensuais... Esta dança é de tal forma contagiante, que pessoas saídas de Moçambique há várias décadas, ficam possuídas por uma vontade enorme de dançar a marrabenta quando ouvem o conhecido ritmo africano.


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Quem são os Makonde?

Durante o período colonial os moçambicanos mantiveram intacta a sua cultura centenária, sendo pouco permeáveis à natural influência ocidental. Os dialectos, os hábitos alimentares, a escultura, principalmente em pau-preto e outras madeiras e mapikos, a pintura, as danças e cantares, os batuques, a música popular com utilização de tambores e marimba, são facilmente reconhecidas como únicas. Importante também e representativo do espírito artístico e criativo do povo moçambicano é o artesanato que se manifesta em várias áreas, destacando-se as esculturas em pau-preto dos Macondes do Norte de Moçambique.

Como em outros países, paralelamente a esta cultura genuinamente popular, emergiu cheia de força outra mais visível após a independência, liderada pela camada da população mais erudita e tendo como alvo preferencial também a populações citadinas, classes média alta, para o turismo e para exportação. Sendo a massa crítica alvo, para estes novos artistas e agentes de cultura, reduzida em termos nacionais, o recurso às manifestações culturais no estrangeiro é crescente. Assim os escritores procuram mercados de língua portuguesa para apresentar as suas obras; os escultores e pintores são reconhecidos em exposições na Europa; os músicos procuram principalmente os mercados anglofonos com enfoque na vizinha África do Sul; os grupos de dança percorrem os mais variados palcos mundiais. Por exemplo, o grupo Xipane-pane esteve recentemente em Sesimbra, Moreira Chonguiça actua na África do Sul, Cândido Xerinda coma banda Time-Mozam percorre mundo, e não é por acaso que muitos dos sites destes artistas apresentam-se em inglês, de modo a serem conhecidos além fronteiras.

É uma verdade incontestável que estes artistas e agentes culturais só têm êxito no seu trabalho porquanto se baseiam na genuína cultura popular, o que torna as suas obras valiosas e procuradas. É curioso que algumas pessoas, contemplando pinturas feitas por artistas moçambicanos, tentam mimetizar alguns temas como sendo africanos - o resultado costuma ser desastroso. Quem conhece bem a pintura moçambicana reconhece nessas réplicas a falta um determinado 'traço' africano! O mesmo acontece com as obras em pau-preto ou na plástica de quem dança uma marrabenta.

A definição de cultura é muito alargada. Vai dos usos e costumes às histórias que passam de pais a filhos. O modo de vestir, as cores garridas das capulanas e os penteados elaborados, e o modo como as mães mantêm os filhos colados a si. Os gostos alimentares e a dieta feita à base de milho, mandioca, peixe e aves. A simpatia e hospitalidade com que recebem um forasteiro, em contraponto com outros povos que os recebem armados e desconfiados. Moçambique tem um território extenso povoado por várias etnias com caracteristicas culturais próprias - as tatuagens faciais dos macondes e a sua arte em talhar o pau-preto; a mistura branca, feita com certas raízes e água, com que as macúas tratam a sua beleza facial; e em Zavala encontramos os marimbeiros mais conhecidos de Moçambique.

E é nos dias de festa que muitas das características culturais mais se manifestam, genuínamente, com uma alegria natural.

As gentes de Moçambique têm características próprias em cada zona do país, formando globalmente uma cultura ímpar. O sentimento muito forte de família, alargado a um grande número de elementos, torna o moçambicano solidário por natureza. Um linotipista com quem trabalhei no jornal Diário, apesar de ganhar um vencimento acima da média, dizia com um sorriso, não ser rico. Certo dia convidou-me a ir a casa dele no dia do pagamento, dia especial como eu ía verificar. Havia uma pequena festa no quintal, e o vencimento foi distribuído por cerca de vinte pessoas que ele considerava a sua família!

Moçambique fez muito para reconstruir-se desde o fim da guerra, embora as minas terrestres, as secas (a última em 1998) e as cheias continuem a flagelar. A sida e a fome ajudam a tornar este povo um dos mais pobres e martirizados do mundo. O país permanece ainda uma pátria frágil e é sobretudo «um Estado à procura da sua Nação, havendo nome e território falta ainda muito caminho naquilo a que se pode chamar identidade nacional» - diz Mia Couto, o mais conceituado romancista moçambicano. Apesar de tudo, e duma forma gradual, Moçambique começa a implementar uma economia de mercado, criando um ambiente político e social sereno que faz atrair os investidores estrangeiros.

É grande a actividade da construção civil, a disponibilidade de bens de consumo, os grandes projectos de investimento estrangeiro, a recuperação das estradas, e o desenvolvimento turístico. A imprensa vai sendo cada vez mais credível e isenta. No excelente site de notícias de Moçambique, não se vislumbra qualquer tipo de censura ou alinhamento partidário.

À boa gente de Moçambique, presto homenagem, respeito e admiração pela forma corajosa e tenaz como tem sabido enfrentar e ultrapassar todas as dificuldades, desde os conflitos armados até às calamidades naturais. Tenho esperança, numa paz duradoira, na prosperidade, e no respeito pela justiça; que iguais oportunidades de valorização serão dadas a todos os moçambicanos, não olhando ao local onde vivem ou à sua condição económica.