Quem lá esteve não esqueceu o calor humano. Quem lá nasceu tem a certeza de que não seria o mesmo se tivesse nascido noutro lugar. Quem nasce em África sente com mais força a liberdade de viver... Que segredos guarda esta terra cálida que enche a memória de tanta gente?

"Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doença incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuinamente portugueses mascara-se a doença, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli.

Os paraísos servem-nos para esquecer que o resto do mundo existe ou para nos lembrar que o mundo pode ser um lugar melhor? Depois de uma semana em Moçambique, onde visitei Maputo e as belas ilhas do Bazaruto e de Santa Carolina, regressei de África com a sensação de ter visitado uma outra face da terra.

Por mais filmes que se vejam, mais livros que se leiam, por mais documentários e notícias que nos passem debaixo dos olhos, África só pode ser absorvida, entendida e sentida in loco, com as suas cores e os seus cheiros, a sua beleza e a sua miséria, a sua música e a sua magia, a sua imensidão e as suas gentes. Foi preciso ir a África para finalmente perceber a nostalgia incurável, qual malária do coração, dos que lá nasceram, cresceram ou viveram, e que a descolonização obrigou a uma partida forçada.

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Impressões de uma viagem a Moçambique

Um email recebido de um amigo deu-me notícias de Moçambique. Dizia ele ...

" Estive em Moçambique, mais concretamente em Maputo, no passado mês de Abril, sendo que a última vez que lá tinha estado foi em Julho de 2003, há cerca de 11 anos, portanto.

Inevitavelmente, somos levados a fazer comparações, não só com os tempos da nossa juventude, os tempos do colonialismo, mas também com o que observámos na última visita.

Assim, a primeira impressão que fica é que há mais dinheiro a circular: começamos por entrar no País por uma aerogare completamente nova onde as mangas de acesso directo substituem, com vantagem, os autocarros que transportavam os passageiros desde os aviões à aerogare, agora com muito mais luz natural e um pé direito que inibe as sensações de claustrofobia nos mais sensíveis.

Chegando à cidade,o número e a grandiosidade das construções novas ou em curso impressiona, principalmente a quem há muito deixou de ver e sentir a dinâmica do sector da construção civil (na Baixa, no local da antiga Casa Coimbra está agora em construção um arranha-céus de várias dezenas de andares e que chega até à Praça 7 de Março, de modo que o edifício do Banco Standard Totta parece uma miniatura liliputiana; na zona em frente aos estádios do Desportivo e do Sporting, actualmente Maxaquene, outrora compostos de eucaliptos e casuarinas, existe agora uma série de novos edifícios, principalmente de serviços, onde pontuam delegações do BCP e da GALP; nos terrenos contíguos à FACIM, agora devolutos, novos prédios de vários andares começam a surgir).

Tudo isto evidencia uma dinâmica económica que há muito deixámos de ver e que, espero, não seja pronúncio de uma “economia de betão”… (até porque, por outro lado, verifica-se pouco cuidado na conservação dos edifícios mais antigos; o abastecimento de água é intermitente – se não fossem os reservatórios de água que cada prédio tem…!)

Já junto à praia, a partir do Miramar, a movimentação também é grande, desta vez com a construção de uma nova estrada (ou auto-estrada, pois, ao que parece, vai ter portagens) já em fase de asfaltagem pelo menos até ao Bairro Triunfo, e que dará ligação à Estrada Nacional 1, já mesmo junto à entrada de Marracuene, a par de outras obras de relevo como a recuperação das praias até à Costa do Sol, com a construção de novos pontões, o abate das velhas casuarinas já meio desenraizadas e do enchimento das praias com areia, trazida não sei de onde.

Ainda no domínio das infra-estruturas começam a ver-se empreendimentos, uns novos, outros reactivados, como é o caso das instalações do parque WaterWorld, junto à Costa do Sol em que a componente de lazer e restauração dão mostras de um grande dinamismo.

Por outro lado, o número de automóveis em circulação é absolutamente descomunal, muito devido à importação de veículos usados do extremo Oriente, que sendo relativamente baratos, “democratizou” o transporte privado, apesar do preço dos combustíveis ser razoavelmente elevado – 47 meticais (1,10€) / litro de gasolina.

O contraponto deste (pseudo) desenvolvimento encontramo-lo nos inúmeros buracos que “povoam” as ruas e avenidas da cidade, nos transportes públicos (vulgarmente conhecidos por “chapas”, agora com a “inovação” de esse tipo de transporte ser feito em carrinhas de caixa aberta, vulgarmente conhecidas por “my love”, pelo facto de os utentes terem de vir agarrados uns aos outros para não correrem o risco de cair) sem as mínimas condições de conforto e até de segurança, nos omnipresentes e por vezes imensos mercados de rua (“dumba nengues”), improvisados em todo e qualquer passeio de rua e que constituem a única fonte de rendimento para uma quantidade muito significativa de pessoas que não tem sequer o ordenado mínimo (2500 Meticais – 60€), etc.

Se acrescentarmos que os serviços de hotelaria e restauração, por exemplo, têm preços idênticos ou até mais elevados que em Portugal, que as rendas de casa atingem com facilidade os 1500 – 2000 USD, fica claro que a grande maioria da população não tem acesso a estas mordomias e, consequentemente, a pequena corrupção tem campo fértil para prosperar…

Em jeito de conclusão, diria que a “sorte” é que a terra é generosa, as praias paradisíacas e o Povo pacífico e amável, suportando sem revoltas e com estoicismo as dificuldades da vida, o que faz de Moçambique um local onde nos sentimos em paz, bem-vindos e, na hora da partida, com vontade de regressar. "

Hambanine Moçambique!

Eduardo White

MANUAL DAS MÃOS (excerto)

Eu gostava de poder fugir a esta realidade tão fulminante. Dizem-me os amigos para enfrentar o problema, para agarrar o touro pelos cornos. Aliás, dizem-no sempre quando isto não é o que se passa com eles.

Não tenho dinheiro. Gastei-o a exilar-me em mim mesmo. No álcool, algumas vezes. A pagar rodadas dele aos amigos para não ficar sozinho. Tenho um pavor à solidão. É-me corrosiva e não sei viver com ela.

Penso, como consequência, em partir. Para onde? Não sei, se tivesse dinheiro era para uma ilha. A minha ilha. Moçambique. É bela. Antiga. Magistral.

Vejo-a:

Um pássaro revolve as asas por dentro do verde esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas, sobre a espuma amarelecida, dos navios cargueiros que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas.

A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha.

As redes que sobre o chão encontro estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode, por dentro, a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nessa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg. Porque Deus descansa aqui, ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar, ou de um negro macua, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que, por teimosia, não quer morrer.

Vão longe, a navegar, os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que não dizem os poemas, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem entender, entretanto, o que eles explodem e doem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores.

Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e, talvez, será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives.

Assim, o meu velho Camões, macua zarolho só por ter visto sempre demais, terá, talvez, ali, amado o seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que nela, até hoje, não o sabem ler.

Mas era para lá que eu queria partir.

Eduardo White morreu no domingo de madrugada (24.8.2014), no Hospital Central de Maputo, o poeta moçambicano Eduardo White, um dos nomes mais significativos da actual literatura moçambicana e autor de uma extensa bibliografia, inaugurada há 30 anos com Amar sobre o Índico (1984). Tinha 50 anos. (notícia no Público)

Ondas Gigantes inundam bairro da Praia Nova e parte da Ponta-Gêa, na cidade da Beira

(2014-09-15) A água do mar invadiu um bairro de caniço e dezenas de luxuosas moradias na cidade da Beira, Sofala, centro do país, desalojando várias famílias.

Ondas gigantes associadas à subida da maré projectaram uma enorme quantidade de água do mar para o bairro da Praia Nova, uma área habitacional de caniço com problemas de ocupação desordenada, e parte da Ponta-Gêa, uma zona residencial de elite.

“Voltámos a ser invadidos pelas águas do mar. A preocupação cresce a cada dia por a zona já estar electrificada e pode haver situações de electrocussão dada a natureza da zona”, declarou à Lusa, Manuela Victor, que teve a sua casa e bens atingidos pelo mar na quinta-feira no local e que ainda se mantém inundada.

O mangal da cidade da Beira, que servia de barreira natural de protecção contra a invasão das águas, foi totalmente destruído por populares, que cortaram as plantas para a construção de habitações e para lenha.

“A situação de saneamento não é das melhores na zona e uma invasão de água expõe-nos ainda mais a perigos de doenças, disse à Lusa, Amina Domingo, moradora, e que também alertou para a existência de “casas com energia mal instalada, o que pode provocar mortes por electrocussão”.

O comércio no mercado da Praia Nova, de referência na venda de pescados e ponto de partida e chegada das embarcações de cabotagem de pequeno porte, foi encerrado devido às inundações.

A cidade da Beira está construída abaixo do nível do mar, o que levou a autarquia local a construir esporões e um muro de protecção, para combater a erosão costeira e o avanço das águas.

Em declarações à Lusa, Albano Carige, vereador para a área de construção e urbanização no Conselho Municipal da Beira (CMB), disse que um primeiro plano de construção de uma barreira de protecção costeira mostrou-se insustentável, estando em estudo um segundo para travar a invasão das águas do mar.

“O nosso projecto previa a construção de cinco quilómetros de muro de alvenaria ao longo da costa, mas um novo estudo desaconselhou o plano, pelo que optámos pela construção de esporões de pedra. Mas, pelo elevado custo da empreitada, não deu para cobrir a extensão prevista”, explicou Albano Carige, manifestando-se solidário com as vítimas.

O vereador disse que vários contactos foram feitos com parceiros de cooperação para o financiamento da obra em falta, estando prevista a construção de “caixas-de-ar”, para aliviar o impacto das marés alta, erosão costeira, e consequente invasão do mar nos bairros.

“Está em análise a possibilidade de se usar uma mini-draga e um “bulldozer” para a retirada de areia na área. Agora estamos a avaliar o projecto e o impacto ambiental da operação, pois a empresa pretende retirar areia durante cinco anos com isenções fiscais”, concluiu.

Fonte: Notícias