Quem lá esteve não esqueceu o calor humano. Quem lá nasceu tem a certeza de que não seria o mesmo se tivesse nascido noutro lugar. Quem nasce em África sente com mais força a liberdade de viver... Que segredos guarda esta terra cálida que enche a memória de tanta gente?

"Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doença incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuinamente portugueses mascara-se a doença, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli.

Os paraísos servem-nos para esquecer que o resto do mundo existe ou para nos lembrar que o mundo pode ser um lugar melhor? Depois de uma semana em Moçambique, onde visitei Maputo e as belas ilhas do Bazaruto e de Santa Carolina, regressei de África com a sensação de ter visitado uma outra face da terra.

Por mais filmes que se vejam, mais livros que se leiam, por mais documentários e notícias que nos passem debaixo dos olhos, África só pode ser absorvida, entendida e sentida in loco, com as suas cores e os seus cheiros, a sua beleza e a sua miséria, a sua música e a sua magia, a sua imensidão e as suas gentes. Foi preciso ir a África para finalmente perceber a nostalgia incurável, qual malária do coração, dos que lá nasceram, cresceram ou viveram, e que a descolonização obrigou a uma partida forçada.

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Eduardo White

MANUAL DAS MÃOS (excerto)

Eu gostava de poder fugir a esta realidade tão fulminante. Dizem-me os amigos para enfrentar o problema, para agarrar o touro pelos cornos. Aliás, dizem-no sempre quando isto não é o que se passa com eles.

Não tenho dinheiro. Gastei-o a exilar-me em mim mesmo. No álcool, algumas vezes. A pagar rodadas dele aos amigos para não ficar sozinho. Tenho um pavor à solidão. É-me corrosiva e não sei viver com ela.

Penso, como consequência, em partir. Para onde? Não sei, se tivesse dinheiro era para uma ilha. A minha ilha. Moçambique. É bela. Antiga. Magistral.

Vejo-a:

Um pássaro revolve as asas por dentro do verde esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas, sobre a espuma amarelecida, dos navios cargueiros que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas.

A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha.

As redes que sobre o chão encontro estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode, por dentro, a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nessa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg. Porque Deus descansa aqui, ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar, ou de um negro macua, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que, por teimosia, não quer morrer.

Vão longe, a navegar, os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que não dizem os poemas, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem entender, entretanto, o que eles explodem e doem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores.

Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e, talvez, será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives.

Assim, o meu velho Camões, macua zarolho só por ter visto sempre demais, terá, talvez, ali, amado o seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que nela, até hoje, não o sabem ler.

Mas era para lá que eu queria partir.

Eduardo White morreu no domingo de madrugada (24.8.2014), no Hospital Central de Maputo, o poeta moçambicano Eduardo White, um dos nomes mais significativos da actual literatura moçambicana e autor de uma extensa bibliografia, inaugurada há 30 anos com Amar sobre o Índico (1984). Tinha 50 anos. (notícia no Público)

Ondas Gigantes inundam bairro da Praia Nova e parte da Ponta-Gêa, na cidade da Beira

(2014-09-15) A água do mar invadiu um bairro de caniço e dezenas de luxuosas moradias na cidade da Beira, Sofala, centro do país, desalojando várias famílias.

Ondas gigantes associadas à subida da maré projectaram uma enorme quantidade de água do mar para o bairro da Praia Nova, uma área habitacional de caniço com problemas de ocupação desordenada, e parte da Ponta-Gêa, uma zona residencial de elite.

“Voltámos a ser invadidos pelas águas do mar. A preocupação cresce a cada dia por a zona já estar electrificada e pode haver situações de electrocussão dada a natureza da zona”, declarou à Lusa, Manuela Victor, que teve a sua casa e bens atingidos pelo mar na quinta-feira no local e que ainda se mantém inundada.

O mangal da cidade da Beira, que servia de barreira natural de protecção contra a invasão das águas, foi totalmente destruído por populares, que cortaram as plantas para a construção de habitações e para lenha.

“A situação de saneamento não é das melhores na zona e uma invasão de água expõe-nos ainda mais a perigos de doenças, disse à Lusa, Amina Domingo, moradora, e que também alertou para a existência de “casas com energia mal instalada, o que pode provocar mortes por electrocussão”.

O comércio no mercado da Praia Nova, de referência na venda de pescados e ponto de partida e chegada das embarcações de cabotagem de pequeno porte, foi encerrado devido às inundações.

A cidade da Beira está construída abaixo do nível do mar, o que levou a autarquia local a construir esporões e um muro de protecção, para combater a erosão costeira e o avanço das águas.

Em declarações à Lusa, Albano Carige, vereador para a área de construção e urbanização no Conselho Municipal da Beira (CMB), disse que um primeiro plano de construção de uma barreira de protecção costeira mostrou-se insustentável, estando em estudo um segundo para travar a invasão das águas do mar.

“O nosso projecto previa a construção de cinco quilómetros de muro de alvenaria ao longo da costa, mas um novo estudo desaconselhou o plano, pelo que optámos pela construção de esporões de pedra. Mas, pelo elevado custo da empreitada, não deu para cobrir a extensão prevista”, explicou Albano Carige, manifestando-se solidário com as vítimas.

O vereador disse que vários contactos foram feitos com parceiros de cooperação para o financiamento da obra em falta, estando prevista a construção de “caixas-de-ar”, para aliviar o impacto das marés alta, erosão costeira, e consequente invasão do mar nos bairros.

“Está em análise a possibilidade de se usar uma mini-draga e um “bulldozer” para a retirada de areia na área. Agora estamos a avaliar o projecto e o impacto ambiental da operação, pois a empresa pretende retirar areia durante cinco anos com isenções fiscais”, concluiu.

Fonte: Notícias