
Do lado direito o Banco de Moçambique, Casa Coimbra e no quarteirão seguinte o Café Continental.
Em frente deste, estará o Café e Cinema Scala. O verdadeiro centro social da cidade. Na estrada um machibombo
branco e vermelho arranca...
Depois da Malhangalene, fui viver para a Maxaquene, na rua Alfredo Keil perto dos cafés Palhota e Smarta. Uma rua
sem saída que nos permitia jogar à bola e fazer longas partidas de "paulito".
Saía de casa com os livros de estudo, de calções, sentindo o calor de 30º ou mais que nos envolvia e nos colava as camisas
finas ao corpo. Ia pela parte central da 24 de Julho calmamente e na conversa com um ou dois colegas. No chão, um tapete
vermelho feito de flores de acácia.
Passava pelo Clube Naturais de Moçambique, Pastelaria Pigalle à
direita e Pastelaria Princesa à esquerda, onde se compravam os melhores bolos e doces da cidade. De vez em quando passava por
nós um mainato a correr com as marmitas numa mão e com a outra a tocar berimbau !
E depois de passar em frente da Escola Comercial onde os miúdos do Liceu sempre sonhavam arranjar uma namorada, virávamos à
direita em direcção ao Museu e às paragens dos autocarros. Era uma das principais portas de entrada no Liceu. A outra era a
central do lado da estátua, voltada para um jardim de tantas recordações e namoricos.
Restaurante da Costa do SolAos domingos de manhã, durante quase todo o ano e se outro programa não surgisse,
íamos para a praia. Ou se apanhava o autocarro n.1 (o mais velhinho da frota) que nos levava em marcha lenta pela marginal fora até às praias.
Ou, quem tinha carro, rumava ao Miramar ou ao Dragão d'Ouro.E parava logo ali na Polana onde havia muitos banhistas, ou ía andando por
aquela estrada de 10 km ao longo de praias mais ou menos desertas, até ao final - a Costa do Sol.
A Costa do Sol tem um restaurante (cujo dono penso ainda ser um "resistente" grego), serve marisco, pregos acompanhados duns
pickles de pimentos e cerveja Laurentina ... irresistível. Aos fins de semana, havia Baile.
Por detrás do restaurante passa um rio onde muitas vezes pesquei e perto da Ponte de Madeira apanhei as melhores amêijoas que comi até hoje.
Aliás, não era preciso apanhar, pois atravessando a ponte, havia sempre algumas mamanas a vender latas de amêijoas por preços muito baixos.
Cinema Gil Vicente
A tarde poderia ser passada de muitas maneiras. Mas muitas vezes foi passada numa matiné no Scala, Manuel Rodrigues,
Avenida, Varietá, ou Gil Vicente. Outros escolhiam os passeios no jardim Vasco da Gama, onde aos domingos tocava a Banda
Militar no Coreto ou havia partidas de ténis nos 2 courts verdes.
Nos finais das tardes de Domingo, nos dias mais quentes, era comum as famílias fazerem aquilo que se chamava a "voltinha dos
tristes". Um passeio primeiro de carro pela marginal fora, começando no edifício das Finanças, Zambi, Clube de
Pesca, Fonte Luminosa, e marginal onde a essa hora ainda havia muitos pescadores.
Um dos acontecimentos que mais juntava os
Laurentinos eram os Bailes Party, as Quermesses (maristas), os Carnavais e as Festas de Fim de Ano.
As tardes de baile que me
ficaram no coração, eram as passadas no pátio da piscina dos Velhos Colonos com música ao vivo e onde havia sempre "miúdas" prontas para um
pé de dança.
Mas a Casa dos Lisboetas, a Casa do Porto e a Casa do Minho perto do Zambi eram também pontos de referência.
Os Carnavais eram o máximo. O Pavilhão do Sporting, o Malhangalene, e o Ginásio também ao lado do Zambi, faziam as grandes festas.
Todos se mascaravam ou faziam grandes grupos de foliões que se divertiam com a música brasileira, moçambicana (marrabenta)
e inglesa (difundida pela LM Rádio para a África do Sul). Durante alguns anos foi organizado um "corso" de viaturas ornamentadas
que enchia literalmente a Avenida da República.
As Festas de fim de ano também se realizavam nestes pontos mas alguns locais
mais "in" eram por vezes escolhidos como o último andar do Hotel Girassol e o Hotel Polana.
A marginal dos pescadores
Seis da tarde, as folhas verdes das palmeiras ao longo da marginal vão balouçando lentamente ao ritmo duma aragem suave e húmida
que nos faz suportar os 32 graus que nos envolvem.
À nossa frente a Baía do Espírito Santo de águas calmas, faz chegar até nós o cheiro de maresia e o convite a um passeio à Marisol na Catembe.
Sentados num dos bancos de madeira, aguardamos que algumas das canas de pesca dê um sinal de peixe a picar. Se não der, também não importa, pois só ía interromper a conversa sobre a próxima viagem à Ponta do Ouro.
Atrás de nós os carros passeiam lentamente na volta dos tristes que vai do Zambi ao Miramar. O tempo corre lento suave e ninguém tem ideia que poderia estar noutro lugar melhor.
No passeio de cimento quadriculado, é um vai-e-vem de amigos, famílias, miúdos e raparigas alegres, ninguém olha para o relógio, ninguem tem pressa de partir. Sente-se que estamos todos bem uns com os outros.
Estamos no paraíso.
Moçambique era composto naquele tempo por uma mistura de comunidades que se davam e gostavam.
A presença Goesa em Moçambique, reforçada com muitos que chegaram de Goa Damão e Diu quando esta foi tomada pela Índia,
é não só antiga, como indissociável do nascimento da nação moçambicana.
Comunidade cristã e com hábitos portugueses profundamente assumidos.
Era uma comunidade com que era agradável de confraternizar. Tive amigos goeses "amigos mesmo".
Malhanga como também era chamada...
Vários bairros com uma vivência muito própria e com camadas sociais diversas. Desde o Sommershield das lindas vivendas onde
viviam as pessoas mais abastadas, passando pela Polana, Central, Maxaquene, Baixa, e já nos limites da cidade o Alto-Maé, Munhuana e a
Malhangalene. Seguiam-se os subúrbios como as Mahotas que ladeava a saída da cidade para o aeroporto.
Vivi alguns dos melhores anos
bem no centro da Malhangalene. Era atravessada pelas Rua do Porto e Heróis de Marracuene. Tinha vários largos, sendo os mais conhecidos o
Largo do Minho, o Largo do Alentejo e este que se vê na foto, junto à Igreja velha (que a nova foi construída perto do Clube Malhangalene no
final da Av Massano de Amorim).
Largos da Malhanga
Alguns relvados e com baloiços, eram o ponto de encontro da classe juvenil. Ali se ouviam os Hit-Parades da LM-Rádio, ali se combinavam
as idas à praia ou ao cinema. Também se namorava. À volta da Igreja funcionavam sempre organizações como a JOC e os Escuteiros. A
Malhangalene não era excepção. Chegou a ter cerca de uma centena de Lobitos, Exploradores, Caminheiros e Guias.
Alguns "Jamborees" (encontros internacionais de escuteiros) foram feitos ao lado do Parque de Campismo no Miramar.
A meio da Rua do Porto e junto ao Largo do Minho, encontra-se um campo de hóquei onde se realizavam muitos torneio de futebol de
salão e de hóquei. Mas o verdadeiro centro desportivo deste bairro era, sem dúvida o Pavilhão do Malhangalene. Hóquei, Patinagem Artística,
Boxe, Concursos de Música Pop, Futebol, etc. Fui também um dos pupilos das aulas de hóquei dadas pelo saudoso pai do Adrião.
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